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Carta Pastoral da Câmara dos Bispos | Diocese Anglicana de Brasília

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“Eis que dois deles viajavam nesse mesmo dia para um povoado chamado Emaús, próximo de Jerusalém; e conversavam sobre todos esses acontecimentos. Ora, enquanto conversavam e discutiam entre si, o próprio Jesus aproximou-se e pôs-se a caminhar com eles; seus olhos, porém, estavam impedidos de reconhecê-lo… E eles pararam, com o rosto sombrio…”

Evangelho de São Lucas 24. 13-17.

 

 

Como disse alguém, - um dia, nós também nos descobriremos no caminho de Emaús. Em verdade, muitas vezes nós temos cantado: “Pelo vale escuro segurei, Jesus… breve a noite desce, noite de Emaús…” Hino 258. De fato, o “estranho” foi reconhecido, mas sua presença logo se dissipou dos olhos dos discípulos. A jornada, a conversação e a revelação foram benditas, inesperadas, tocantes e verdadeiras.

 

Esta, talvez, se pode dizer, é em muitos momentos nos últimos anos nossa experiência como eclesianos da IEAB, como cidadãos de nosso país e, não menos, na lembrança de nossa própria vida pessoal e familiar… “com o rosto sombrio.”

 

Como brasileiros sofremos pela corrupção disseminada e quase sempre impune. “A miséria só existe porque tem corrupção” canta Gabriel o Pensador. Amarguramos as condições contraditórias de uma realidade social que poderia ser muito diferente, justa, saudável e promissora. Milhões de famílias brasileiras sofrem o “apartheid” de classe que bem conhecemos. Nossos jovens anseiam por oportunidades que talvez, injustamente, nunca venham a ter. A realidade política se mostra mais e mais decepcionante. Nas últimas décadas, os mesmos nomes de políticos profissionais mais que reprováveis não só são reeleitos, mas agravam a saúde de um processo democrático que poderia ser nossa força como cidadãos. Saúde e educação, o binômio inarredável para a população toda e sua dignidade, têm cedido espaço para a propaganda esperta e a impostura oficial. Andamos, como diz São Lucas, “com o rosto sombrio”. 

 

Na vida da IEAB, suas dioceses e paróquias, temos também sofrido a perplexidade diante de tropeços em nosso ser e agir. São, não menos, adversidades que se abatem, semelhantemente, sobre outras tradições eclesiais. A escassez de recursos não parece ser a causa primeira para explicar uma condição dramática, mas gravemente conspira para o enfrentamento dos obstáculos. De qualquer forma, “com o rosto sombrio”… nós nos sabemos no caminho de Emaús.

 

Reunidos como Câmara dos Bispos, ouvimos relatos doloridos, mas, ao mesmo tempo, nos alegramos com a partilha de inúmeras situações de Boas Novas que o Pai tem proporcionado nas várias dioceses. O povo de Deus na IEAB tem amadurecido a sua fé ainda que em meio a tempos de tristeza ou novidade de vida. Os Bispos agradecem a Deus pela voz e sabedoria dos leigos ouvidas na reunião da Câmara. O caminho de Emaús se confirma assim, neste tempo da Ressurreição, como a força de vida transformada de que tanto necessitamos. A tristeza não usa máscaras e talvez por isso nos abale e reforce tanto, não por nossa própria coragem, mas pela presença bendita do Ressuscitado andando conosco.

 

As adversidades e o sofrimento agem como uma escola pela qual aprendemos a ver e compreender coisas que antes não entendíamos. Através das crises realizamos um discernimento mais adulto na experiência da fé. Pelo caminho da Cruz, cativados pelo Crucificado, somos sustentados na comunhão e esperança a nós revelada como povo de Deus, na visão do Cristo no meio de nós. Contudo, a fé antiga da Igreja, herdada de nossos pais, necessita testemunhar também às situações contemporâneas de indiferença, injustiças, desesperanças, empobrecimento e anseio de muito mais vida. O tempo da Páscoa nos recorda que não ficamos órfãos. Não estamos sós. A Igreja não somos nós, mas Deus conosco! O sentido mesmo da fé na Ressurreição nos significa concretamente que as mudanças devem ou podem acontecer. É pela luz da Presença do Ressuscitado no meio de nós que nos sentimos capazes de mudar e transformar. A rejeição e a morte não têm a última palavra. O Senhor Ressuscitado é princípio de vida abundante, corajosa e restauradora. É pela luz da Páscoa do Senhor que vemos com mais clareza nossas estruturas como Igreja de Deus. Amamos a muitas delas. Reconhecemos que elas necessitam de cura e de novas formas. Amamos a Igreja ainda muito mais, mas não a confundimos com estruturas que devem ficar em seu próprio tempo. Muitas destas formas já não mais falam à nossa geração e às condições de vida de nosso povo. É aí que a adoração reaparece como o fato mais central da vida e da fé. Sem a adoração por primeiro, nem mesmo a missão se justifica.

 

Devemos com urgência abrir mão de muito do nosso ruidoso interior, medroso do silêncio. Pela quietude e pelo silêncio, na escuta da sabedoria do Pai, começando na vida de piedade pessoal, envolvendo não menos a ação litúrgica e a prática pastoral, vislumbraremos, como em Emaús, o semblante do Ressuscitado a nos encorajar. A IEAB inteira, começando por seus Bispos, todo clero “e as congregações confiadas aos seus cuidados”, no tempo da Páscoa da Ressurreição é gravemente interpelada pela oportunidade de metanoia, de vida radicalmente nova e de testemunho na Missão.

 

O mistério da Ressurreição de Jesus, transformador de tantas gerações antes de nós, hoje nos interpela e pacientemente revela caminhos e oportunidades novas. A Páscoa nos chama a provar do fermento santo de vida ressuscitada. Pela participação nos santos mistérios do Pão e do Vinho recebemos o dom do perdão e da emenda de vida.

 

Reunidos em Porto Alegre de 30 de Março até 3 de Abril, os Bispos da IEAB, antecipando a semana da Paixão do Senhor, rezaram e intercederam por nossa restauração como povo pascal, vencendo a morte, anunciando a esperança, semeando encorajamento e suplicando pela redescoberta pessoal e eclesial daquilo que o Cristo de Emaús nos ensina e revela.

“Não há dor que seja sem divino fim; Faze, ó Deus, que a Igreja compreenda assim, e, apesar das trevas, possa ver, Senhor, que Tu mesmo a levas, com imenso amor”. (Hino 258)

 

Nota: A Câmara dos Bispos, reunida em POA de 31 de Março / 3 do corrente decidiu, por unanimidade, pospor a realização da reunião do Sínodo Geral e da Confelider em razão da comemoração, em 2010, do 120º Aniversário da IEAB (e da lembrança dos 200 anos de presença da Capelania Britânica no Brasil). Esta transferência, além de permitir melhor preparação para os eventos e sua celebração, concederá ainda mais tempo para a atual coleta e exame de dados já em andamento. É também possível que o Arcebispo de Cantuária, Sua Graça o Arcebispo Rowan Williams, possa estar conosco em ocasião tão especial, lado a lado com outros convidados e visitantes por nós esperados.

 

Porto Alegre, 03 de abril de 2009

Dom Maurício Andrade, Primaz e Brasília

Dom Almir dos Santos, Oeste

Dom Jubal Pereira Neves, Santa Maria-RS

Dom Orlando Santos de Oliveira, Porto Alegre, RS

Dom Naudal Alves Gomes, Curitiba, PR

Dom Sebastião Armando Gameleira Soares, Recife, PE

Dom Filadelfo  de Oliveira Neto, Rio de Janeiro, RJ

Dom Saulo Maurício de Barros, Belém, PA

Dom Renato da Cruz Raatz, Pelotas, RS

Dom Roger Bird, São Paulo, SP

Dom Clovis Erly Rodrigues, Emérito

Dom Luiz Osório Pires Prado, Emérito

Dom Glauco Soares de Lima, Emérito