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Ato público com forte participação ecumênica marca repatriação de documentos do “Brasil: Nunca Mais” | Diocese Anglicana de Brasília

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Marcelo Schneider/CMI – CLAI - ALC

“Em 1978, quando cheguei a Genebra, e apresentei a idéia de organizar um arquivo com cópias feitas em segredo dos autos da ditadura militar no Brasil para Chuck Harper, ele ficou imediatamente motivado. “Isso é possível? Podemos mesmo faze-lo?’, ele perguntou. Eu disse: ‘Sim, mas precisamos de apoio para o que o Rev. Jaime Wright e Dom Paulo Evaristo Arns estão fazendo’.

As palavras acima são de Eny Moreira, advogada, que foi a primeira a ir à sede do Conselho Mundial de Igrejas, na Suíça, para externar a preocupação com os registros da corte no brasileira sobre os casos de tortura e pedir apoio para um projeto para coletar e catalogar essa informação.

Naquele dia narrado por Moreira, começava o envolvimento do Conselho Mundial de Igrejas num dos esforços coletivos mais complexos de  resgate da verdade e da dignidade de centenas de seres humanos que sofreram abusos de um regime ditatorial.

Parte destes esforços culminaram na tarde de 14 de junho, em São Paulo, no evento público de repatriação de documentos e microfilmes mantidos a salvo no exterior pelo CMI e pelo Center of Research Libraries (CRL), na Suíça e nos EUA respectivamente, e que foram entregues às autoridades brasileiras para disponibilizar, no prazo de um ano, para consulta pública de qualquer cidadão através da internet. Esta nova interface do projeto se chama “Brasil: Nunca Mais” Digit@l.

Por mais de quatro horas, cerca de 200 participantes se reuniram no auditório da Procuradoria Regional da República – 3ª Região para ouvir 19 oradores representando autoridades públicas, membros de órgãos governamentais, representantes de igrejas e de outras diversas esferas deste processo de cooperação multilateral que marcou o projeto “Brasil: Nunca Mais”.

O quadro de forte apelo por justiça e verdade presentes nas falas dos vários oradores criou um ambiente reconfortante e acolhedor para o testemunho de dois ativistas ecumênicos que sofreram abusos da ditadura militar na década de 70.

O ex-funcionário do CMI, Anivaldo Padilha, da Igreja Metodista do Brasil e, hoje, colaborador de Koinonia - ACT Aliança, não conseguiu segurar as lágrimas, várias vezes, quando partilhou detalhes do que lhe aconteceu quando foi preso em 27 de fevereiro de 1970 e nos outros dias ele e seus amigos foram interrogados pelas autoridades militares em São Paulo. Após sua libertação, Padilha foi enviado para o exílio e forçado a viver longe de sua esposa, que à época estava grávida. Padilha só pode conhecer o filho depois da lei da Anistia, quando este já tinha 8 anos de idade.

Eliana Rolemberg era uma das amigas de Padilha presa no mesmo dia. Ela expressou seu sentimento de repulsa em relação aos abusos sofridos nas mãos violentas de seus opressores, destacando a realidade duplamente desesperadora que enfrentava: De um lado, havia o constante medo das ameaças envolvendo sua filha, ainda bebê. De outro, a dor de ver e ouvir seus amigos serem torturados. “De uma forma muito conflituosa, é mais fácil a gente ser torturada do que ver quem a gente ama sofrer esse tipo de abuso”, disse ela. Rolemberg é diretora-executiva de outra organização da ACT Aliança no Brasil, a Coordenadoria Ecumênica de Serviço – CESE.

 O “Brasil: Nunca Mais” Digit@l está sendo lançado num momento em que a sociedade brasileira discute a criação de uma comissão da verdade para revisar violações dos Direitos Humanos praticados, no passado, pelo Estado.

Um dos palestrantes do evento, o Dr. Wadih Damous, presidente da OAB/RJ, disse que o de procura hoje com  a formação de uma comissão da verdade é trazer à tona uma luta que não prevê vingança, mas justiça. “O direito que perseguimos é o de ver aqueles que cometeram esses crimes responderem no banco dos réus pelo que fizeram. A impunidade dos autores do passado é uma mensagem clara para aqueles que cometem a tortura hoje. As vítimas da tortura no Brasil, hoje, não são mais ativistas políticos, mas os afro-descendentes, os indígenas, as crianças e os todos os excluídos “, alertou.

Os presidentes do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) e do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), também tiveram a oportunidade de abordar o vasto público presente no auditório. O bispo anglicano Julio Murray, presidente do CLAI, que foi membro de uma comissão de verdade, no Panamá, que lidou com casos de abusos cometidos entre 1964 e 1994, sublinhou o aspecto da cura que uma comissão desta natureza pode trazer: “No meio da morte e da tragédia também vemos sementes de esperança através de nossa inconformidade e mobilização”, afirmou.

O bispo católico Dom Manoel João Francisco, presidente do CONIC, apontou para a realidade atual no Brasil, onde os Direitos Humanos não estão sendo respeitados.

Referindo-se ao papel do CMI no projeto “Brasil: Nunca Mais”, o Procurador-Geral da República, Roberto Monteiro Gurgel Santos, expressou sua gratidão ao Conselho Mundial de Igrejas por ter somado esforços cruciais para a defesa e conservação do patrimônio público e de um importante capítulo encoberto da história brasileira.

Em seu discurso, o secretário geral do CMI, Rev. Dr. Olav Fykse Tveit, expressou sua gratidão a todos os envolvidos neste processo, ao mencionar os nomes do advogado Eny Moreira, de Dom Paulo Evaristo Arns e do presbiteriano Rev. Jaime Wright, que trabalharam intensamente para articular o processo de cópia dos documentos em segredo e mantê-lo seguros, e Charles R. Harper, que atuou, entre 1973 e 1992, no CMI, como diretor executivo para questões de Direitos Humanos na América Latina. Harper, que vive, atualmente no Sul da França, não pode comparecer ao evento, mas foi representado por sua neta, Nina, que recebeu uma expressiva ovação do público.

Ao saudar o Procurador Regional da República, Marlon Weichert, que trabalhou estreitamente com a CMI e o CRL preparando a transferência da documentação para o Brasil, Tveit afirmou que o evento foi além das expectativas. “Isso realmente mostrou o valor do que nós mantemos em nossos arquivos e como é importante compartilhar a história e a realidade do que aconteceu. Também é importante ver o que acontece quando trabalhamos juntos. Os momentos que experimentamos, hoje, mostraram claramente o papel que o movimento ecumênico desempenha neste tema, oferecendo apoio e também uma estrutura para que projetos se tornem realidade”, concluiu.

A advogada Eny Moreira foi uma das homenageadas pela Procuradoria Geral da República por seu envolvimento no projeto. Ao agradecer a homenagem, Moreira lembrou dos companheiros de caminhada e destacou o sentimento de solidariedade silenciosa dos envolvidos no trabalho.

Após o evento, o Rev. Dr. Walter Altmann, moderador do Comitê Central do CMI, expressou seus sentimentos, tanto como brasileiro como membro da liderança do Conselho. “Fiquei extremamente tocado pelo evento como um todo, pelos discursos, pelos fortes e dolorosos testemunhos que ouvimos, assim como pelos compromissos que queremos continuar a honrar. É um marco importante para o povo e a nação brasileira. Estou realmente orgulhoso do papel que o CMI desempenhou e continua a desempenhar, através de sua secretaria geral ou pelo trabalho de suas igrejas-membro no Brasil”, afirmou.

A delegação do CMI segue em São Paulo pelo resto da semana acompanhando o econtro de famílias confessionais do CLAI e visitando iniciativas de igrejas-membro do CMI no Brasil. No último dia da visita ao Brasil, dia 19, Tveit irá pregar em culto ecumênico, a ser realizado às 10:45 na Primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo.

 

Foto: Secretário Geral do CMI Olav Fykse Tveit entrega documentos ao Procurador-Geral da República Roberto Monteiro Gurgel Santos. Marcelo Schneider/WCC